
É o tempo dela. No Público, um documento multimédia sobre a matança do porco em Trás-os-Montes. Vale a pena pelas fotografias, excelentes, mas os textos são uma merda e nem ouvi o som, que se for captado no local poderá ser interessante.
O que me chocou não foram as imagens, susceptíveis de ferir a susceptibilidade dos leitores, conforme avisa no início do trabalho (honras à sua causa). Chocou-me mais ver como esta festa continua a ser apresentada como típica daquela zona portuguesa, como se no Alentejo ou em Tomar, por exemplo, não se fizesse a matança do porco exactamente nos mesmos termos. Quase de madrugada, para que todo o trabalho se conclua antes do almoço que é da carne desse porco. E com os amigos a ajudar e um especialista no trabalho, como acontece num churrasco normal. Assisti com um prazer sádico próprio da infância a várias matanças de porco. Cheguei a ajudar, sempre que me deixaram. Brinquei com o cadáver do porco acabadinho de matar, quando os adultos se retiravam para o primeiro branquinho do dia antes da queimada do pelo do animal. Que outra hipótese teria de saber se as flechas do meu arco espetavam em seres humanos? Se queres ver o teu corpo, mata o teu porco, havia alguém sempre que dizia, então era uma oportunidade única para testar o meu armamento. Nunca vi que o porco sofresse muito com a sua matança e que os homens se importassem muito com isso, embora o tivessem visto nascer e criado toda a vida.
A mitologia que se pretende transmitir com este acto, levada ao cúmulo por haver estudos antropológicos sobre o fenómeno (em Trás-os-Montes, e só em Trás-os-Montes, claro) , pretende mostrar uma espécie de endeusamento dos homens em volta do "bitcho", contrariamente exposto num ritual de sacrifício pagão. Não há nada de especial na matança de um porco, acreditem. Os homens vão fazer isso e assumem-no com toda a naturalidade do mundo. O contrário terá sido há cinquenta anos, quando um porco era um sinal de riqueza que só se via numa casa por aldeia.
Não há ali bárbaros, apenas pessoas que se levantaram de manhã. É apenas uma pequena parcela do que terão para fazer no resto do dia. E ninguém é herói por isso. E o porco não é muito difícil de segurar - eu próprio experimentei. E ninguém fica a olhar, quando o porco se mexe depois de morto como se fosse obra do Demo. As pessoas que participam na matança, homens, mulheres e crianças, são normais - mesmo as de Trás-os-Montes.
Não há ali nenhum ritual. O porco é para comer. Nunca gostei do sangue cozido, embora houvesse quem o comesse, sim. Provei em cru, temperado com vinagre para não coagular, e pareceu-me melhor, embora muito enjoativo. Por outro lado, quem nunca provou as febras ainda a deitar fumo do calor do animal, temperadas com sal e assadas na brasa, nunca irá perceber o que está por detrás de uma matança do porco.
PS: Em breve, falarei da matança de coelhos, galinhas e outros pássaros. Essa sim, uma relação homem-animal bem mais complexa.
