11.9.08

Água

Por vezes naquelas tardes quentes dos verões de 80 esperávamos pelo fim da tarde e corríamos do terceiro andar até ao carro. Saíamos de Tomar, na direcção de Lisboa, e dirigíamo-nos para a Asseiceira para ir à água. 
Na bagageira do carro, levávamos 20, 30 garrafões de vidro que o meu pai tinha lavado minutos antes. Chegávamos à fonte da Asseiceira, mas antes de nós muitos já lá estavam. A fila para a única bica de água, que era um tubo em ferro de duas polegadas a sair de uma parede, chegava a ter dezenas de pessoas e era normal ainda estar lá gente a encher à uma ou duas da manhã. 
Ao lado da fonte, umas mulheres lavavam roupa à mão num tanque comunitário. Quando as lavadoram passavam, a caminho de casa, cheirava a roupa lavada.  Eu e o meu irmão corríamos à volta do tanque e brincávamos com a água esbranquiçada pelo sabão.  Ao lado da fonte, no espaço que terá sido uma fonte antiga, jogávamos à bola ou outra coisa qualquer. 
As pessoas mais velhas falavam entre elas ou ficavam caladas a olhar entre elas. Quando chegava a vez do meu pai, eu ia lá ao tubo de ferro e bebia directamente daquela água, fazendo uma concha com as mãos. A água era mais gelada que tudo e o cheiro dos eucaliptos purificava o ar. Ao fim, passava tanto tempo para encher os garrafões que estávamos fartos e só queríamos ir para casa. Nessa altura, além das pessoas, o único barulho era dos grilos. Por vezes encostávamo-nos a dormir, nem sei bem onde, talvez no carro. 
Na altura de arrancar para casa, antes de por o último garrafão no carro, bebíamos um pouco para provar. A água estava gelada e sabia a vinho branco, o líquido anterior do garrafão. E depois chegávamos a casa. O meu pai descia e subia mais duas três vezes as escadas para trazer os garrafões.
E era isto. Ir buscar água, a 20 km de casa, à noite, em garrafões que se alternavam com vinho branco. Mas sempre me pareceu que isto, que era tão pouco, iluminado apenas por um reles candeeiro que perdia o foco para a luminosidade da lua cheia, era o sítio mais simples e pacífico do mundo. Eu adorava estar lá. Ainda hoje guardo estas imagens como umas das mais clarividentes da minha vida. E o sabor a vinho da água fria é para mim único. Para mim, a água sempre teve sabor. 

Um comentário:

Anônimo disse...

Eh pá! O que tu escreves é lindo e bem genuíno. Parabéns
(uma fã de Barcelos)